Senta que lá vem história

Durante muitos anos da minha vida, nutri um profundo sentimento de rancor em relação a um namorado. Internamente, ansiava por sua angústia e desintegração, mesmo enquanto exibia um sorriso gracioso e repetia o mantra "quero que ele seja feliz". De certa forma, sua vida se transformou em uma verdadeira provação, embora isso não estivesse diretamente associado aos meus desejos sombrios. Eu permaneci à espreita ao longo desses anos, observando de longe todas as outras jovens ingênuas que se envolviam superficialmente com ele.

Foram anos intermináveis para mim. Intermináveis. Anos em que amava e odiava a mesma pessoa simultaneamente, mergulhando em uma espiral de loucura sem qualquer restrição.

Desde o doloroso término marcado pela traição, decidi que não permitiria mais que ninguém me causasse sofrimento. Quem quisesse permanecer ao meu lado teria que aceitar as consequências dessa decisão. Era como se eu desafiasse o mundo a me amar e a enfrentar as tribulações junto comigo. A todos que magoei com esse comportamento, peço sinceras desculpas. Talvez não compreendam o peso de acordar com o fardo de erros e vazios, ou sentir-se solitária e desesperada, ansiando por um amigo que confirme que o dia valerá a pena. Na época, eu era apenas uma menina, aprendendo a lidar com as cicatrizes que a vida me deixara.

E como mencionei, essa dinâmica persistiu por anos, até recentemente, quando, finalmente, a redenção pareceu se concretizar. Pelo menos é o que eu gostaria de acreditar.

É surpreendente como ainda me afeta tocar nesse assunto. Estou perplexa com o fluxo de lágrimas, uma profusão de emoções antigas. Não tenho dificuldade em lidar com a ideia de não ser amada ou mesmo de ser substituída por outra pessoa, desde que a pessoa em questão decida 'me deixar' antes. E não foi esse o caso. 

O propósito deste texto foi desviado. Não era sobre o sexo apaixonante em qualquer lugar, nem sobre as aventuras selvagens que experimentávamos por aí. Também não se tratava das risadas compartilhadas ao me ver desfilando pela casa com suas roupas. Não era sobre a emoção de descobrir algo novo a cada vez que eu entrava em seu carro ou atendia uma chamada em seu telefone. E certamente não era sobre deitar em sua cama, ouvir a campainha tocar, olhar pela janela e entender que era mais uma. Nem sobre as amigas de trabalho que... enfim. Não, definitivamente não era sobre nada disso, não é mesmo.

Esse texto era para enaltecer o cara que mais admirei em toda a minha vida. Sim, lembrei, era disso que se tratava. Lembrei também de todos os finais de semana em que assistia a filmes no modo mudo porque ele precisava estudar para os milhões de concursos que prestava, e ele sempre passava em todos. Ele era incrível. Naquela época, eu nem tinha terminado o ensino médio, mas o achava o máximo dos máximos. Ele mesmo dizia: "você acredita mais em mim do que eu mesmo".

Ah, claro, agora lembro. O propósito inicial deste texto era exaltar o homem que eu admirava. Recordo-me vividamente de todos os finais de semana em que assistia a filmes no silêncio, enquanto ele mergulhava nos estudos para os inúmeros concursos que se propunha a enfrentar - e sempre saía vitorioso. Ele era verdadeiramente excepcional. Naquela época, eu mal tinha concluído o ensino médio, mas o via como uma figura extraordinária. Ele costumava dizer: "Você acredita mais em mim do que eu mesmo."

Lembro também do dia em que ele me olhou com uma expressão banal, com aquele jeito que me convencia de qualquer coisa, e disse: "me espera só mais um pouquinho". Ele queria me congelar enquanto conferia pela centésima vez se conseguiria conciliar as duas mulheres durante a gravidez da outra moça.

Lembro-me também do momento em que ele me encarou com um olhar insípido, com aquela persuasão habitual que costumava me convencer de tudo, e disse: "Espere só um pouco mais". Ele queria me congelar no tempo enquanto tentava, pela enésima vez, equilibrar a presença de duas mulheres durante a gravidez da outra moça. Foi nesse instante que o nosso enredo chegou ao fim, com ele segurando nos braços um bebê adorável, porém que não era meu. Foi então que percebi quão ingênuo ele era, afinal..

Certamente, vou voltar aqui e compartilhar mais sobre os cinco anos tumultuados que passaram juntos. Pode ser que volte e relate como finalmente encontrei a redenção nessa história e como, hoje, falo dele com afeto e nostalgia por tempos passados. Quiçá, conte como finalmente o libertei de minha mente, alma e espírito.

Hoje, sentada diante do meu perfil no LinkedIn, ao atualizá-lo com mais uma qualificação, uma onda de admiração ressurgiu dentro de mim. E desta vez, percebo que essa admiração é dirigida a mim mesma. Caramba!

Aquela menina que enfrentou a vida sem nem mesmo concluir o ensino médio, que desde cedo se sustentou sozinha e carregou um coração partido, hoje encontra admiração em si mesma. É surpreendente perceber a mulher incrível e destemida que me tornei, com uma sede insaciável por aprendizado e uma vontade inabalável de conquistar o mundo. E é curioso pensar nele neste momento, pois ele costumava ser uma referência para mim.

Continuo mantendo a opinião de que ele é apenas um indivíduo tolo, pois ninguém perde alguém que os valoriza de verdade.

E não, eu não sinto gratidão por tudo.







Comentários

Postagens mais visitadas